segunda-feira, 26 de abril de 2010

O PAVOR DO SEXO

UMA VISÃO ESCLARECEDORA DA SEXUALIDADE E PROPRIEDADE
Quando os seres humanos viviam em bandos, grande parte deles em cavernas, aos machos cabia trazer o alimento e defender a região. Quando a caça e a coleta de outros alimentos rareavam, tinham de buscá-los em territórios defendidos por outros bandos. Essa atividade de caça rudimentar, somada a constantes ataques e defesas, tornava-os fisicamente fortes, ágeis, rudes. O corpo do macho se tornou avantajado em músculos, maior em tamanho.
As fêmeas tinham vida bem diferente. Confinadas nas cavernas ou aldeias, ciclicamente grávidas e amamentando as crias, tinham seus corpos frágeis e pequenos, não dispunham de agilidade ou destreza para enfrentar as agruras da natureza exterior.
Mas eram por demais importantes para o bando, pois produziam filhotes, necessários para engrossar as fileiras da luta por alimento e defesa do território ou novas conquistas, quando machos, ou geradoras de mais filhotes, quando fêmeas.
Ao retornar de sua lida, para onde viviam, os machos sentiam no ar o aroma do cio das fêmeas que ovulavam, tinham ereções e se punham a cheirar as vulvas de todas, montando de imediato nas que estivessem em período fértil. O coito proporcionava alívio para as tensões dos machos e pouca, ou quase nenhuma sensação às fêmeas, que viviam grávidas. Era dar à luz e tornar a engravidar.
Na lógica do instinto daqueles semi-primatas, como os de Cro-Magnon ou Neanderthal, as fêmeas existiam para isso, dar-lhes alívio e relaxamento, gerar filhotes e cuidar destes durante o crescimento.
Para aqueles machos, as fêmeas eram como as árvores, que produziam frutos e os alimentavam até o amadurecimento.
Os filhotes eram das fêmeas e quando estivessem maduros serviriam ao bando. Os machos nada tinham a ver com aquele processo mágico. Era natural ver as fêmeas sempre grávidas, como era natural ver a natureza produzir seus frutos. Nenhum daqueles seres primitivos tinha a menor noção de que poderiam intervir nos processos da natureza.
O ato sexual, então, era apenas uma manifestação natural de desejo do macho, atraído pelo aroma do cio das fêmeas e que as penetrava e encontrava um relaxamento profundo após o coito. Praticavam-no uns em meio aos outros, sem nenhum tipo de pudor e com qualquer fêmea.
A única noção de propriedade, naqueles tempos, era do bando em relação a seu território de caça e coleta. Não existia a noção de família, mas de bando. Não existiam relações maritais de nenhuma espécie; cada fêmea no cio podia ser copulada por diversos ou até todos os machos do bando.
Se o leitor experimentar qualquer sensação de repúdio a esta teoria, dedique-se a observar a vida da maior parte dos demais mamíferos.
O tempo foi passando e nossos ancestrais descobriram aos poucos que era melhor confinar determinados animais para facilitar ou mesmo eliminar o trabalho da caça. Assim, passaram a criar ovelhas, que lhes davam carne, leite e lã com bem menos trabalho. E foi confinando e criando outros animais, como as aves, que também lhe davam os ovos. Percebeu que as sementes dentro dos frutos, deitadas à terra, geravam novas plantas. Assim foi descobrindo que podia interagir com a natureza.
Mas foi quando separou pela primeira vez as ovelhas dos carneiros, que fez sua maior descoberta, a primeira grande revolução cultural da espécie humana. Maior que a descoberta de como controlar o fogo ou a invenção da roda, os homens descobriram que era o coito do macho sobre a fêmea que gerava os filhotes.
E a conclusão errônea tirada desta descoberta se tornou o maior problema da humanidade. Os machos concluíram que os filhotes estavam no seu sêmem, que eram apenas desenvolvidos nas entranhas da fêmea. Assim, elas eram tão somente hospedeiras destes filhotes porque a elas caberia a tarefa de protegê-los e alimentá-los enquanto crianças, os donos de tais filhotes eram os machos. Elas eram apenas serviçais, submissas à vontade de seus machos.
Mas para que os machos pudessem saber quais filhotes eram os seus, já que todos copulavam com todas, teriam que impedir que aquelas com quem copulassem viessem a copular com outros.
A noção de propriedade, que até então ainda gozava de um certo sentido coletivo, pelo menos dentro de cada bando, deu lugar à propriedade particular. Cada macho tinha que se tornar mais provedor do que os outros, para poder tomar e manter para si a maior quantidade de fêmeas possível. Para isso tinha que se valer do tamanho do exército que podia produzir com elas.
A partir desta fase, o território, as fêmeas que nele se mantinha, os filhotes plantados nestas fêmeas, as ovelhas e outros animais ali confinados, tinham que pertencer a um só macho.
Os conflitos, até então existentes apenas entre bandos distintos, passou a existir entre todos os machos. A noção de propriedade privada estaria para sempre gravada na mente humana. Agora eram as minhas fêmeas, os meus filhotes, as minhas ovelhas, o meu território.
Atrelada à noção de propriedade, veio a ganância, o desejo de possuir mais fêmeas, mais filhotes, mais ovelhas e mais território, até mesmo para manter tantas bocas alimentadas.
Aqueles que não logravam êxito tinham que contentar-se a possuir poucas, uma ou nenhuma fêmea e assim ter menos poder.
Desta forma, leitor, a primeira grande propriedade do macho foi a fêmea.
Através de milênios, a mulher foi a escrava do homem. A ela não eram garantidos senão pouquíssimos direitos.
Mas para preservar este poder, era preciso aos homens manter rígida a ditadura.
Ditadura, para ser forte, precisa de censura. Os homens criaram, ao longo destes milênios, um rigoroso código de censura para que a mulher continuasse ignorante.
Uma das vigas-mestras desta censura foi a disseminação da ideia de que sexo seria algo feio, sujo, pecaminoso, proibido às mulheres, que só poderiam entregar-se a seus senhores constituídos pelo matrimônio e, assim mesmo, sem direito ao prazer.
Mas aos homens, ah, aos homens, a estes o direito ao prazer era garantido pela aquisição de escravas sexuais, aquelas que são conhecidas como as profissionais mais antigas, usadas em troca de migalhas por toda a história e sempre repudiadas, desclassificadas e humilhadas para que não tivessem voz social.
Mas a história cria seus próprios caminhos, afinal, Deus escreve certo por linhas tortuosas.
Para que as operárias submissas pudessem produzir mais a custo menor para seus senhores, os homens criaram artifícios para que não engravidassem, ovulassem menos e tivessem mais liberdade de movimentos durante as menstruações.
A partir de então as mulheres encontraram a brecha na censura para conhecer melhor o mundo exterior, saíram das cavernas para conquistar espaços.
Mas corremos um grande risco, de elas cometerem o mesmo erro que os homens cometeram, de concluir que são tão importantes que precisam dominar o mundo, reverter a situação como um pêndulo, que antes de encontrar sua posição de equilíbrio oscila de um lado para o outro.
Quantas gerações e quantas conclusões erradas se sucederão até que este equilíbrio entre os gêneros possa fazer com que juntos consigamos definir nossos papeis numa sociedade justa?
Uma sociedade em que o ato sexual venha finalmente se tornar o ato mais sublime que Deus criou para nós, de prazer mútuo, de relaxamento mútuo, sem culpas, sem direitos de propriedade física, mas de entrega mútua.
Enquanto isso, teremos que conviver com os sexofóbicos, que temem o fim do mundo pela descoberta do prazer.